| A
cultura neoliberal teme o idealismo dos jovens. Todos os grandes
revolucionários da história tinham menos de 30 anos
de idade ao ousarem consagrar suas vidas a transformar sonhos em
realidade.
São
três os recursos utilizados pelo neoliberalismo para neutralizar
as motivações utópicas da juventude.
Primeiro, a desistorização do tempo. Extirpar o
caráter histórico do tempo, herdado dos hebreus
e tão presente na mensagem de três judeus paradigmáticos
à nossa cultura: Jesus, Marx e Freud.
Sem
o varal da história, o tempo transforma-se num movimento
cíclico.
A
historicidade cede lugar à simultaneidade. O compromisso
ao ficar. O projeto ao prazer imediato. Assim, perde-se a dimensão
biográfica da vida, agora reduzida à esfera biológica.
O
antídoto para este atentado à cultura é a
participação política: no grêmio ou
no diretório estudantil; nos movimentos sociais ou partidários;
na luta por direitos humanos ou pela defesa do meio ambiente.
Toda escola deveria ser um centro de formação política,
sem partidarismo, mas tendo clareza de formar cidadãos
e não consumidores.
O
segundo recurso neoliberal é a redução da
cultura ao mero entretenimento.
Nada de programas televisivos que despertem a consciência
ou imprimam densidade ao espírito. Valem o apelo sensitivo,
o jogo de imagens, o voyeurismo, a pornografia e a violência.
Nada de fazer pensar e, muito menos, ter senso crítico.
Neste
caso, o antídoto é a própria cultura. Acostumar
crianças a lerem livros e jovens a debaterem temas da conjuntura
nacional e internacional. Educar o olhar em cineclubes e sessões
de vídeos, em que filmes, capítulos de novelas e
clipes publicitários são analisados criticamente.
O
terceiro recurso neoliberal é o consumo como fonte de valor
humano.
Em si, a pessoa nada vale. Mas revestida de uma mercadoria valiosa,
como carro importado, mansão e grifes, passa a ter valor.
Ou seja, é a mercadoria que imprime valor às pessoas
e não o contrário.
Neste
caso, o antídoto é a espiritualidade. Quem abre-se
ao transcendente faz a experiência de Deus, entusiasma-se
no serviço ao próximo, já não busca
fora de si a felicidade saboreada em seu espírito.
Prefere
a solidariedade à competitividade. Vive o amor, não
como dever, mas como o prazer de ser feliz por fazer os outros
felizes.
Frei
Betto é escritor, autor do romance "O Vencedor"
(Ática), entre outros livros.
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